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O desenvolvimento do tromboembolismo venoso depende da alteração
em um ou mais fatores da tríade descrita por Virchow, em 1856, que considera
as alterações do fluxo sanguíneo, da crase sanguínea e da parede vascular,
como responsáveis pelo processo trombótico. A trombose venosa profunda (TVP) é uma doença que afeta, anualmente, uma a duas pessoas em cada 1.000 habitantes. A TVP é a terceira doença cardiovascular mais freqüente nos EUA. Anderson et al. estimaram em torno de 170.000 casos novos de TVP ou embolia pulmonar (EP), por ano, e 9.000 recidivas no mesmo período, resultando em pelo menos 13.000 mortes a cada ano. Em nosso meio, o estudo de Maffei nos mostra uma estimativa de 0,6 casos por 1.000 habitantes/ano, a partir dos casos de TVP confirmados por flebografia ou mapeamento dúplex. Sua incidência mostra-se ligeiramente maior nas mulheres em relação aos homens, aumentando dramaticamente com a idade, de 20 a 30 casos por 100.000 pessoas/ano na faixa etária de 30 a 49 anos, para 200 casos por 100.000 pessoas/ano na faixa etária de 70 a 79 anos. Poucos são os estudos sobre os índices de TVP na cirurgia plástica. Reinisch, em 1998, relatou 0,39% de TVP e 0.16% de embolia pulmonar venosa após cirurgia estética da face. Alguns relatos de casos de embolia por trombose venosa e gordurosa foram descritos, relacionados com a dermolipectomia abdominal isolada ou associada à lipoaspiração. Doença de ocorrência multidisciplinar, a TVP está presente, como complicação da internação hospitalar em praticamente todas as especialidades clínicas ou cirúrgicas e os cuidados inerentes à sua profilaxia, diagnóstico precoce e tratamento correto e imediato devem estar sempre vívidos no pensamento diário de todo médico, qualquer que seja sua área de atuação. A TVP tem como conseqüência imediata mais grave a embolia pulmonar, que costuma ser fatal em 0,2% dos pacientes internados. Em sua fase crônica, pode ser responsável por inúmeros casos de incapacitação física e enormes custos socioeconômicos, com o desenvolvimento de insuficiência venosa crônica grave, configurando a denominada síndrome pós-trombótica. A maioria dos casos de TVP parece estar associada a situações clínicas de risco bem definidas, denominadas fatores de risco. O rastreamento dessa afecção através de testes de imagem em pacientes assintomáticos não parece ser uma abordagem custo-efetiva; além disso, seu tratamento é caro, sujeito à complicações, não sendo completamente efetivo no que diz respeito às complicações tardias. Portanto, sua profilaxia efetiva é a melhor estratégia. Durante as 2 últimas décadas, a profilaxia da TVP foi aceita como uma estratégia bem estabelecida e eficaz. Estudos de grupos estadunidenses e europeus definiram recomendações detalhadas, que devem ser empregadas em todas as classes de pacientes hospitalizados. As complicações ocasionadas pela trombose venosa profunda (TVP) e embolia pulmonar em cirurgia plástica têm recebido uma atenção significativa nestes últimos anos. Os fatores de risco de formação da TVP são comuns para qualquer paciente, incluindo os pacientes a serem submetidos a cirurgias plásticas eletivas. Dentre as cirurgias plásticas existem aquelas que aumentam o risco da TVP, seja pelo tipo de decúbito e prazo de permanência do paciente durante o ato cirúrgico, tempo de cirurgia, conseqüência fisiopatológica do trauma cirúrgico ou limitações no pós-operatório. Outras situações de risco são muito freqüentes em nossa especialidade como, por exemplo, o fato de que a maioria das cirurgias estéticas é realizada em mulheres em faixas etárias nas quais é mais evidente o uso de anticoncepcionais ou reposição hormonal, situações que reconhecidamente aumentam o risco de TVP. Anger e cols, em 2003, elaboraram uma tabela de fatores de risco (tabela 1 e 2), específica para a cirurgia plástica, baseada no sistema de avaliação proposto por Weinman, em 1994, que atribuí um número de pontos para cada fator de risco. A classificação e quantificação do grau de risco facilitam a elaboração de uma profilaxia mais acertada. De acordo com o escore obtido, o risco do paciente é classificado em baixo, moderado ou alto, e a profilaxia é indicada. As medidas não farmacológicas não apresentam efeitos colaterais de importância clínica, entretanto, aumentam o custo do procedimento. Tais medidas têm por finalidade ativar o retorno sangüíneo dos membros inferiores. Sabe-se que a mais de 95% dos trombos são formados nas pernas em conseqüência da falta de movimentação dos músculos da panturrilha, importante para o retorno de sangue. Em cirurgias mais longas com completa inatividade dos membros inferiores, a probabilidade de estase e trombose aumenta gradativamente com o tempo. Uma vez ocorrida a TVP, a possibilidade de liberação de parte proximal de um trombo e sua embolização, principalmente pulmonar, é grande, muitas vezes ocorrendo horas após o fim da cirurgia, quando o membro inferior finalmente é mobilizado. Em procedimentos prolongados a manipulação dos membros inferiores e a deambulação precoce são muito importantes. Quando o grau de risco é maior faz-se importante o uso de compressão pneumática intermitente, desde o início da anestesia até o início da deambulação, seguindo o aparelho com o paciente para o leito de internação. O uso de meias elásticas com pressão graduada é recomendado nos pacientes com história prévia de insuficiência venosa ou de fenômenos tromboembólicos. O seu uso deve ser prolongado por alguns dias, principalmente quando a cirurgia envolve membros inferiores, como no caso das lipoaspirações e implantes de próteses de glúteo ou panturrilha. As medidas farmacológicas incluem as medicações mais freqüentemente indicadas na profilaxia da TVP. Entretanto, seu uso é controverso pelo risco de sangramento durante e após o ato operatório. Tornase importante utilizar todos os meios não farmacológicos de prevenção que forem acessíveis, em especial nos casos de risco moderado, na tentativa de evitar o uso de anticoagulantes. A decisão do uso de anticoagulantes deve considerar também o tipo de anestesia a ser empregada. A punção raquidiana é evitada quando do emprego profilático de anticoagulantes. Outros consideram a anestesia geral, em cirurgias prolongadas com os membros inferiores inativos, como um fator de risco, mas que poderia ser evitado tomando os cuidados de rotina. ![]() ![]() Alguns estudos atuais têm verificado que muitos indivíduos portadores de altas taxas de fatores de risco não apresentam, obrigatoriamente, doença tromboembólica, apesar de sujeitos a condições reconhecidamente trombogênicas; ou seja, nem todas as pessoas portadoras de fatores de risco apresentavam trombose ao sofrer estresse trombogênico adicional (trauma, cirurgia, parto, etc.). De forma inversa, constatou-se que um terço dos pacientes com quadro clínico de trombose venosa não apresentam nenhum dos fatores de risco. Considerando-se essas observações, fica patente que há uma “trombofilia espontânea”, idiopática, capaz de gerar a trombose sem necessitar de grande auxílio de um estímulo patogênico extrínseco, ou mesmo, sem necessitar de qualquer processo precipitador. Esta “amizade ao trombo” (trombo+filia) seria derivada de condições peculiares do sistema de coagulação do sangue do indivíduo, talvez uma latente hipercoagulabilidade individual, possivelmente, congênita-familial. O conhecimento dos fatores de hipercoagulabilidade está permitindo a feitura de melhor prognóstico da doença tromboembólica venosa e arterial e a compreensão do fenômeno da trombose dita idiopática, da origem da trombose venosa “espontânea”. É indiscutível que o progresso advindo da identificação dos fatores trombofílicos sangüíneos congênitos constitui um grande passo no estudo do fenômeno tromboembólico. Entretanto, é necessário utilizar com eqüidade as novas conquistas, sem ignorar a importância dos fatores de risco extrínsecos, capazes de gerar a doença tromboembólica independente de condições sangüíneas anômalas genéticas previas ou, pelo menos, até agora conhecidas. |
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