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Não é de hoje que somos sistematicamente submetidos a um forte apelo pela
valorização da estética. Vivemos continuamente sob um processo de globalização
da beleza e de padronização das formas, processo este que traz consigo
significados inconscientes como “sucesso”, “felicidade” e “poder. A característica central do Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) é a preocupação de uma pessoa de aspecto físico normal, com um defeito imaginário em sua aparência física ou a preocupação excessiva com a aparência de um indivíduo com pequena imperfeição física. O Transtorno Dismórfico Corporal é um transtorno mental que se caracteriza por afetar a percepção que o paciente tem de sua própria imagem corporal, levandoo a ter preocupações irracionais sobre os defeitos que ele acredita ter em alguma parte de seu corpo (por exemplo: nariz torto, olhos desalinhados, imperfeições na pele e tantos outros). Essa percepção distorcida pode levar a importantes prejuízos no funcionamento pessoal, familiar, social e profissional, causando sofrimento, vergonha, baixa auto-estima e, em casos mais graves, isolamento social e total incapacidade funcional. O foco dos pacientes com Transtorno Dismórfico Corporal pode incluir qualquer área do corpo ou até mesmo o corpo inteiro. As principais queixas incluem defeitos faciais, como o tamanho ou formato do nariz, dos olhos, perda de cabelo, acne, rugas, cicatrizes, marcas vasculares, palidez ou rubor, inchaço, pêlos excessivos. Há também uma parcela de pacientes com alterações senso-perceptivo, como por exemplo, preocupação com o cheiro que exalam, mau hálito, odor dos pés ou genitais e outros. Embora a maioria das queixas seja bem específicas, alguns podem se queixar vagamente de “feiúra”. Em um estudo com candidatos à cirurgia plástica cosmética, o TDC foi observado em 9,1% dos pacientes. O TDC é diagnosticado com freqüência aproximadamente igual em homens e mulheres, com início da sintomatologia, em geral, no final da adolescência ou início da idade adulta, de forma gradual ou súbita, e seu curso é flutuante e crônico. O perfil destes pacientes denota algumas características marcantes: pessoas extremamente perfeccionistas, tristes, ansiosos, com baixa auto-estima, muito preocupados com a opinião dos outros, com dificuldades nos relacionamentos interpessoais, introvertidos, e com dificuldades de adaptar-se à realidade exterior. Existem alguns comportamentos que podem sugerir que a pessoa tenha TDC, como: - Procurar reasseguramento constante das pessoas a respeito da aparência; - Observar repetidas vezes a própria imagem no espelho, ou, ao contrário, evitar espelhos ou qualquer superfície que possa refletir sua imagem; - Perder muito tempo escolhendo roupas, correndo o risco de se atrasar para compromissos ou evitar as situações se avaliação a respeito da própria aparência não for favorável; - Evitar tirar fotos por se achar “horrível”; - Sentir-se deprimido (a) ou ansioso (a) por causa da aparência; - Sentir que não vale a pena viver por causa do problema; - Evitar sair de dia, preferindo sair à noite e em lugares com pouca iluminação para encobrir o “defeito”; - Buscar insistentemente tratamentos estéticos (cirúrgicos ou não), apesar de as pessoas dizerem não ser necessário; - Nunca ficar satisfeita(o) com os resultados obtidos após um procedimento executado; - Estar atento a qualquer propaganda que prometa melhoras na aparência, para acne, manchas de pele, pêlos, dietas milagrosas, crescimento de cabelo etc., tentando tudo, mesmo que isto signifique riscos à saúde. Uma das conseqüências do TDC é o comportamento social evitativo, no qual os pacientes procuram esquivar-se de atividades costumeiras como trabalho, escola e comemorações no intuito de não terem os seus “defeitos” observados pelos outros, já que acreditam serem alvos de constantes comentários preconceituosos em relação a estes. Dificilmente iniciam uma nova relação de amizade ou conseguem manter um relacionamento amoroso. Desejar uma imagem perfeita não significa sofrer de uma doença mental, mas aumenta as possibilidades deste tipo de transtorno emocional ser desencadeado. A origem do TDC ainda é obscura, mas os dados sugerem ser uma patologia de origem multi-causal, incluindo fatores biológico-genéticos, psicológicos, culturais ou sociais ligados à supervalorização da aparência. A teoria mais aceita para a causa biológica do TDC é a da alteração dos neurotransmissores cerebrais, mais precisamente a serotonina. Esta alteração é reforçada ao observarmos a alta incidência de comorbidade do TDC com depressão e ansiedade, em um total de 50% dos pacientes. Alguns autores acreditam que o TDC raramente aparece sem alguma comorbidade. Com o Transtorno obsessivocompulsivo, fobia social e anorexia nervosa, a comorbidade também é alta, podendo chegar a 40% dos casos. A grande maioria dos pacientes com TDC, em torno de 90%, busca tratamento não-psiquiátrico para suas queixas, principalmente em procedimentos estéticos, cirúrgicos ou não. O tratamento farmacológico mais indicado para o TDC seria o uso de medicações antidepressivas, principalmente dos Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRSI), devido aos baixos índices de efeitos colaterais entre as medicações desta classe. Podemos nos utilizar também de outros tipos de antidepressivos como os recaptadores duplos ou até os antidepressivos tricíclicos, levando em conta os seus efeitos colaterais indesejados. Quanto ao tratamento psicoterapêutico, a linha terapêutica que parece ser a mais indicada é a cognitivo-comportamental, promovendo um conhecimento do transtorno e possibilitando ao paciente o controle gradativo de suas obsessões e compulsões e uma maior capacidade de lidar com suas relações interpessoais e reinserção às suas atividades cotidianas. Napoleon (1993), investigando alterações psiquiátricas em uma população de 133 candidatos à cirurgia plástica, encontrou TDC em cerca de 20% dos mesmos. Devido a elevada incidência de TDC na população, os cirurgiões plásticos devem estar bastante atentos para diagnosticar esta importante patologia antes da realização de procedimentos estéticos, cirúrgicos ou não-cirúrgicos, pois esses procedimentos podem, se realizados, agravar os sintomas do TDC. Desta forma, evita-se um fracasso real dos resultados obtidos ou a impressão distorcida do fracasso destes. O encaminhamento ao psiquiatra e profissionais relacionados proporcionará ao paciente portador de transtorno psiquiátrico o correto tratamento de sua patologia e, conseqüentemente, um bem estar físico e mental. |
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