A adequada formação do tecido de granulação, para se conseguir uma ótima cicatrização, depende do equilíbrio entre a biossíntese e a degradação da matriz extracelular. A síntese excessiva de colágeno, pelos fibroblastos, e a degradação e remodelagem deficientes da matriz extracelular, pela colagenase, podem dar origem a lesões dérmicas tipo quelóides e cicatrizes hipertróficas.

O excesso de tecido cicatricial foi descrito pela primeira vez nos papiros de Smith em torno de 1700 aC, no entanto, Baron Jean Louis Alibert, em 1806, foi o primeiro a discutir este assunto. Chamando inicialmente o excesso de tecido cicatricial de cancróide, Alibert, posteriormente, alterou seu nome para quelóide, a fim de evitar uma conotação cancerígena. A palavra quelóide deriva do grego chele, que significa garra de caranguejo, e do sufixo - oide, ou forma de. Os Olmecas do México, na era pré-colombiana, utilizavam a escarificação como meio de decoração dos seus corpos. Na era moderna, mulheres da Núbia, no Sudão, são intencionalmente escarificadas com quelóides faciais como forma de decoração. Como parte de um ritual, os nativos de Papua-Nova Guiné realizam incisões na pele e inserem barro ou cinzas no interior das feridas afim de induzir a formação de quelóides. Este ritual doloroso torna-os membros respeitados da sua comunidade tribal, sendo honrados pela sua coragem e resistência.

Os quelóides desenvolvem-se exclusivamente em humanos, ocorrem igualmente em ambos os sexos, sendo mais comumente encontradas em negros, orientais e espânicos, não acometendo indivíduos albinos. ABERGEL et al., 1985, descreveu que a incidência dos quelóides é desconhecida, referindo, no entanto, que estudos com algumas populações africanas sugerem uma incidência de aproximadamente 6%. RAMAKRISHNAN et al., 1974, sugeriu a ocorrência de transmissão familiar conferida por gene de herança autossômica dominante.

História familiar, resposta prévia exuberante à lesão, inflamação prolongada, localização da lesão, idade entre 10 e 30 anos e gravidez são alguns dos fatores preditivos ao desenvolvimento dos distúrbios fibroproliferativos dérmicos humanos.

O quelóide caracteriza-se por ser uma lesão fibrosa elevada, que se estende além das margens das feridas de origem e, raramente, regride. Desenvolvem-se em média 3 meses após o trauma, ocorrendo, predominantemente, no lobo da orelha, ombros e tórax anterior. Sua ocorrência independe da mobilidade da área lesada, podendo pequenos traumas causar grandes lesões. Histologicamente os quelóides caracterizam-se por apresentar fibras colágenas grandes e espessas, compostas por numerosas fibrilas, apresentando poucos ou até mesmo nenhum fibroblasto positivo para a-actina (miofibroblasto).

As cicatrizes hipertróficas são lesões fibrosas, que tipicamente permanecem dentro dos limites da ferida original, sofrendo habitualmente resolução espontânea parcial, desenvolvem-se aproximadamente 4 semanas após o trauma. A cicatriz hipertrófica ocorre predominantemente nas superfícies flexoras, estando intimamente relacionada ao movimento da região afetada, sendo que, o tamanho da lesão está normalmente relacionado a gravidade do trauma. Histologicamente as cicatrizes hipertróficas caracterizamse pela presença de pequenos vasos sanguíneos, fibras colágenas pequenas e desordenadamente agrupadas em nódulos, sendo comum a presença de miofibroblastos.

Dor, prurido e queimação são sintomas presentes no quelóide e na cicatriz hipertrófica, podendo ser mais exacerbados nesta última.

A morbidade sofrida pelos indivíduos com quelóides e CHs vai de cosmética à sérias limitações do movimento.

O tratamento destes distúrbios fibroproliferativos, além de demorado, comporta poucas abordagens sistematicamente bem sucedidas. Nas ultimas décadas, muitos pesquisadores têm se dedicado a elaborar métodos terapêuticos realmente eficazes na prevenção e tratamento destas patologias cicatriciais. Dentre os muitos métodos propostos para o tratamento dos quelóides e cicatrizes hipertróficas destacam-se o uso de roupas compressivas, lâminas de gel de silicone, conformadores, crioterapia, radioterapia, corticosteróides, quimioterápicos, bleomicina, laser, cirurgia e, recentemente, o uso intralesional de bloqueadores do canal de cálcio, como o verapamil (LEE, et al., 1994; LAWRENCE et al., 1996; DOONG et al., 1996; D`ANDREA, et al., 2002).

Uma maior compreensão da complexidade da biologia celular e molecular das cicatrizes hipertróficas e dos quelóides resultará na elaboração novas condutas preventivas e métodos terapêuticos. A regulação dos fatores de crescimento, a modulação do processo inflamatório e da resposta imunológica e o equilíbrio da síntese de proteínas e de enzimas proteolíticas mostram-se essenciais no controle destes distúrbios fibroproliferativos dérmicos humanos.

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