A ocorrência de uma lesão cutânea desencadeia uma cascata organizada e complexa de eventos celulares e bioquímicos, que resultam em uma ferida cicatrizada. A cicatrização pode ser dividida em três fases distintas, porém superpostas, hemostasia e inflamação, proliferação, maturação e remodelagem. Qualquer falha no processo cicatricial pode resultar em ausência de fechamento da ferida, retardo da cicatrização ou no desenvolvimento de cicatrizes patológicas, como quelóides e cicatrizes hipertróficas.

Com a perda da integridade tecidual ocorre a ruptura de vasos e a conseqüente exposição do colágeno subendotelial as plaquetas. Estas, por sua vez, se agregam formando um coágulo, promovendo a hemostasia e liberando grânulos ricos em fibronectina plasmática, serotonina e fator de crescimento derivado das plaquetas (PDGF). A fibronectina aumenta a adesão dos fibroblastos ao tecido em cicatrização, a serotonina aumenta a permeabilidade capilar e o PDGF estimula a proliferação dos fibroblastos e a produção do tecido conjuntivo. A inflamação é essencial ao processo cicatricial, sendo caracterizada por aumento da permeabilidade vascular, quimiotaxia das células da circulação para o interior da ferida e liberação local de citocinas e de fatores de crescimento.

Os neutrófilos são as primeiras células a migrarem para a ferida, sendo responsáveis pela remoção de corpos estranhos e do tecido desvitalizado. Sua ação máxima ocorre em torno do segundo dia da cicatrização. A liberação inicial e transitória de fatores provenientes das plaquetas é um primeiro estímulo poderoso na ativação dos macrófagos, células estas, primordiais na cicatrização por promover a fagocitose, a angiogênese e a coordenação da migração e ação dos fibroblastos. Os macrófagos atingem sua maior concentração na ferida em torno do terceiro dia da cicatrização. Os linfócitos, o último tipo celular a migrar para a ferida, liberam interleucinas (IL-I) e .- interferon, substâncias importantes na resposta imune e na proliferação dos fibroblastos. A ação máxima dos linfócitos ocorre em torno do sexto dia de cicatrização. A invasão celular acarreta a lise do coágulo e as células começam a sintetizar fibronectina celular. A fibronectina e os produtos de seu fracionamento apresentam propriedades quimiotaxicas e adesivas, estimulando a proliferação da matriz extracelular. A fase inflamatória estende-se da ocorrência da lesão ao sexto dia de cicatrização.

A segunda fase da cicatrização, conhecida como proliferação, caracteriza-se pela presença dos fibroblastos, que migram para o interior da ferida a partir do tecido circundante, sendo responsáveis pela produção do colágeno, proteína de grande importância na matriz extracelular. WITTE et al., em 1997, descreveu que os fibroblastos que derivam da ferida passam por alterações fenotípicas, influenciados principalmente pelas citocinas derivadas dos macrófagos, caracterizando-se por maior síntese de colágeno e contração, porém com menor proliferação, em comparação com os fibroblastos dérmicos normais. Além dos fibroblastos, é possível encontrar na fase proliferativa as células endoteliais, responsáveis pela angiogênese, e os miofibroblastos, responsáveis pela aproximação das bordas da ferida (contração). Os miofibroblastos originam-se a partir dos fibroblastos, células musculares lisas, pericitos e de algumas células estromais, após estas células terem passado por alterações fenotípicas induzidas por fatores do meio ambiente da ferida. Entre o 8º e 15º dias de cicatrização, os miofibroblastos apresentam-se em número elevado, quando então, progressivamente regridem, praticamente desaparecendo em torno do 30º dia. O mecanismo responsável por essa redução no número de células é a apoptose. Os três elementos essenciais que definem os miofibroblastos são: a presença de fibras de estresse (a-actina), sítios de ligação estroma-célula bem desenvolvidos (fibronexus) e junções gap e intercelulares bem definidas.

As células epiteliais começam a proliferar poucos dias após a ocorrência da lesão, a partir das bordas da ferida ou de ilhas epiteliais (não-lesadas) dentro da ferida, estimuladas pelas citocinas e fatores de crescimento liberados, principalmente, pelos macrófagos. A proliferação das células epiteliais recebe influência direta da concentração de íons inorgânicos no tecido em cicatrização, a presença de níveis elevados de cálcio inibe a quimiotaxia e a adesão do queratinócitos a ferida. A fase fibroproliferativa inicia-se em torno do segundo ou terceiro dia após o trauma, estendendo-se até o 14º dia da cicatrização.

A fase de maturação e remodelagem, terceira fase da cicatrização, caracteriza-se pela deposição de colágeno na ferida. Com a rápida eliminação da maior parte de fibronectina, por ação de proteinases, e com o acúmulo gradual de feixes de colágeno tipo I, que aumentam a força tensora da cicatriz, esta fase destaca-se por sua grande importância clínica. A resistência da cicatriz aumenta progressivamente, após uma semana representa cerca de 3% da resistência da pele intacta, após 3 semanas 20% e após 3 meses 80%, não apresentando nenhum aumento adicional daí em diante. A composição e estrutura da matriz extracelular mudam constantemente desde o início de sua formação. A matriz extracelular deposita-se primeiramente nas margens da ferida, sobre o tecido de granulação, a deposição na região central dá-se tempo depois do que ocorre na periferia. Desta maneira, a composição e estrutura da matriz extracelular do tecido de granulação dependem do tempo decorrente desde a agressão e da distância entre as margens da ferida. A terceira fase da cicatrização inicia-se em torno do 8º dia após o trauma, estendendo-se até 1,5 anos.

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